O que é o amor?
Apesar de ser uma das palavras mais utilizadas no cotidiano, raramente somos convidados a defini-la. Dizemos que amamos parceiros, amigos, familiares e filhos, mas nem sempre sabemos explicar o que torna uma relação verdadeiramente amorosa. Essa pergunta ganhou novos contornos para mim durante o Grupo de Leitura que realizei em 2024 sobre o livro Tudo Sobre o Amor, de bell hooks.
A proposta era debater e aprofundar um capítulo do livro a cada encontro. Como o grupo seria composto por psicólogos, planejei como associar teorias psicológicas e a prática clínica no decorrer das discussões. Contudo, para minha surpresa, assim como o livro propõe um olhar para as próprias relações, também os encontros tornaram-se mais pessoais: os participantes queriam falar sobre o amor em suas vidas. Não era mais um grupo de psicólogos discutindo psicologia, mas um grupo de pessoas dispostas a falarem sobre o amor – proposta fundamental de bell hooks.
“Pôr o amor em palavras”
Somos ensinados a pensar no amor como sentimento, algo abstrato, com as definições do dicionário sempre evidenciando apenas amor romântico. bell hooks me ensinou duas tarefas importantes: definir o amor e pensar o amor como ação.
1. A clareza sobre o amor. Para além dos significados individuais, é relevante aprendermos sobre o amor a partir de uma definição compartilhada.
Compartilho minha experiência profissional como exemplo. A princípio, ao atender em centro de defesa da mulher e realizar grupos psicoeducativos ou palestras, ensinava com clareza o que é violência, quais as formas de violência contra a mulher e a dinâmica de relacionamentos abusivos. Enquanto a definição do que é amor permanecia indefinível.
Percebi esse contraste de definições lendo bell hooks. Com seus estudos, ela sabia o porquê da dificuldade de definir-se amor: é ameaçador demais aceitar uma definição de amor que possa questionar o amor em familiares, amigos ou em parceiros românticos, afinal, abuso e negligência não podem coexistir com o amor. Portanto, onde há violência, o amor fracassou.
A autora sustenta seu estudo e contorna a definição de amor com os seguintes ingredientes: amor é cuidado, afeição, responsabilidade, respeito, compromisso e confiança.
Essa compreensão também nos leva a olhar para nossas relações de forma diferente. Muitas vezes aprendemos a chamar de amor comportamentos marcados por controle, humilhação ou desrespeito. Quando passamos a pensar o amor como cuidado, responsabilidade e respeito, algumas relações precisam ser revisitadas.
“O amor é ação”
2. Amor é ação, nunca simplesmente um sentimento. Pensar no amor como uma ação propõe o reconhecimento da responsabilidade e do comprometimento neste ato. Em resumo: “o amor é o que o amor faz”. O amor como ação tem vontade, intenção e escolha.
Viver segundo uma ética amorosa, segundo a autora, é demonstrar cuidado, respeito, integridade e cooperação de forma a melhorar a vida de todos: “o amor que criamos em comunidade permanece conosco onde quer que vamos”. bell hooks tira o foco do romantismo, para trazer o amor enquanto bem estar coletivo. Sendo o amor verbo, assumimos a responsabilidade de praticar o amor em tudo que fazemos, perpetuando um valor que traz coerência e guia as relações.
Talvez uma das contribuições mais importantes de bell hooks seja nos lembrar de que o amor não é algo que simplesmente sentimos. O amor é algo que construímos, praticamos e sustentamos através das nossas escolhas cotidianas.
Isso torna o amor menos misterioso e, ao mesmo tempo, mais responsável.
O Grupo de Leitura por fim pôs o amor em palavras e ações.
Ficamos com a reflexão: como o amor é experimentado em nossas vidas? Como podemos nos comprometer com o amor?
Tudo sobre o amor: novas perspectivas. bell hooks. São Paulo: Elefante. 2021.
Ana Carolina Zacari é psicóloga formada pela PUC-SP, com formação em Psicologia Perinatal no Instituto Gerar e residência em Saúde da Mulher pela UNIFESP. Experiência no setor de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital São Paulo, especializado no atendimento de alto risco, e na Casa de Saúde da Mulher Domingos Delascio. Trabalhou no Centro de Defesa e Convivência da Mulher, realizando psicoterapia breve e grupos psicoeducativos. Realiza psicoterapia online e oferece supervisão aos psicólogos que desejam se dedicar no tema da perinatalidade e saúde da mulher.



